Entre Mundos
Bijin-ga é o termo usado para definir os retratos femininos realizados pelos Xilogravuristas japoneses e que foram disceminados pelo ocidente após a exposição universal de Londres em 1862. O fascínio que essas xilogravuras coloridas, chamadas genericamente de ukiyo-e, exerceram sobre os artistas impressionistas, pós impressionistas e modernos permitiu que as regras do academismo fossem quebradas e que a arte se desenvolvesse em todos os “ismos” do final do século XIX e XX.
Catartina Gushiken desenvolve um universo de Bijin-gas pós-modernas que se situam entre o mundo da tradição japonesa e uma linguagem contemporânea. Ela possui um trabalho de texturas, linhas e cores muito minucioso que remete aos seus ancestrais japoneses.
A forma com a qual suas “bonecas” (termo que a artista usa para definir seus personagens femininos) são desenhadas pode parecer algo diferente para o olhar ocidental. Porém essa “linha quebrada” do traço de Catarina está diretamente ligada à arte oriental. Existe um distânciamento das formas tradicionais de representação da figura humana, e isso causa estranhesa no mundo ocidental. Em um Segundo momento, o encanto do observador pelas “bonecas” se dá pela riqueza de cores e texturas. Somos então capturados pela sensualidade velada de um olhar, de uma mão sobre os lábios, um mamilo que se esconde sob a transparência de um tecido. Quanto mais se olha mais detalhes são descobertos sob as texturas e cores de uma palheta delicadamente infinita.
Em 2011 Catarina se propos um desafio, o de retirar ao máximo o encanto e a sedução das cores em uma nova série de trabalhos. Essa palheta foi reduzida ao branco, preto e dourado e já resultou na exposição “Despindo o Vazio” apresentada em Outubro na Galeria Urban Arts e também apresentada nesta exposição. As obras dessa série fazem um todo com a moldura, que parece derreter frente ao observador. O que predomina é a linha, o traço, o desenho. O mundo das cores, da mancha aquarelada que se espalha imprevisivelmente sobre o papel é deixado de lado.
Desta forma temos nessa exposição um contraponto entre o mundo da mancha de cor de um lado e o mundo das linhas, do desenho do outro. Essa é uma das batalhas mais antigas dentro da História da Arte que, como um pêndulo privilegia hora a mancha e depois a linha.
Henrique Luz
(Jornalista e Curador do Núcleo de Arte Urbana - BR)