"SOBRE A PINTURA DE MARCOS DE OLIVEIRA ( por Guilherme de Faria)
Marcos de Oliveira é um fenômeno. Este jovem autodidata baiano parece ter nascido pronto. Sua pintura atual (não conheci seus antecedentes ou primeiras fases) nascem emblemáticas, heráldicas, e eu diria até mesmo hieráticas, isto é, como ícones sagrados de regionalidade, com a força telúrica do Sertão. São imagens impressionantes, com uma estilização extrema e pessoal, cujo acabamento técnico perfeito dá a impressão de tapeçarias, com as figuras sobre fundos chapados, em que tudo se passa no nível do plano, o que lhes confere uma contemporaneidade que evoca até mesmo um dos melhores aspectos do grafitismo atual. Entretanto, Marcos não é um grafiteiro. Sua pintura, a meu ver, tem aura e a poética do que se costumou chamar "armorial", corrente da qual ele seria um exemplo, se o grande Ariano Suassuna me desse a permissão para aí encaixar o jovem e brilhante pintor. Figuras mágicas, delirantes, vindas do fundo da memória arcaica, primordial, de um sertão de sonho e de lutas, onde cangaceiros se apresentam como guerreiros míticos de uma lenda sem fim e sem idade, lutando contra os dragões da maldade, que nós sabemos serem os exploradores do povo... Mas, não há nessa pintura, propriamente, nenhuma conotação política. Este é o universo de um poeta da pintura, que conhece muito bem o seu ofício, cujo artesanato subjacente não deixa nada a dever ao dos grandes santeiros dos sertões deste nosso Brasil.
O pintor Marcos de Oliveira veio para ficar. Com um "métier" digno de um pré-renascentista, podemos imaginá-lo no seu atelier despojado como um claustro, elaborando com verdadeira devoção estas imagens que revelam uma verdadeira religiosidade, fruto que é de um amor extremo à Arte com que foi fartamente aquinhoado pela graça do bom Deus do nosso povo...
Salve, novo Mestre!
Guilherme de Faria
artista plástico e escritor
São Paulo, 16 de Outubro de 2010"